Se você me pedisse para descrever como minha mente funciona, eu provavelmente não usaria palavras como “linear” ou “organizada”. Eu diria que ela se parece mais com a minha bolsa de equipamentos em um dia de ensaio intenso: cheia de lentes, baterias e cartões de memória espalhados, uma aparente bagunça que, para mim, faz todo o sentido. Por anos, o diagnóstico de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) pareceu uma explicação para as minhas dificuldades. Hoje, eu o vejo como a fonte do meu maior superpoder: a criatividade.

Como fotógrafo, meu trabalho é capturar o mundo. Mas a verdade é que a neurodiversidade me ensinou a ver o mundo de uma forma fundamentalmente diferente. E é essa visão única que eu levo para cada clique.

A Lente do Hiperfoco: Vendo Além do Óbvio

Uma das características mais conhecidas do TDAH é o hiperfoco. É a capacidade de mergulhar tão profundamente em algo de interesse que o resto do mundo simplesmente desaparece. Para muitos, isso pode ser um problema de produtividade. Para mim, é uma bênção.

Quando estou atrás da câmera, o hiperfoco me permite conectar com meu sujeito de uma maneira intensa. Eu não vejo apenas uma pessoa posando; eu vejo a microexpressão que surge entre um sorriso e outro, a forma como a luz dança no fio de cabelo, a emoção contida em um olhar. É a capacidade de silenciar o ruído externo e focar obsessivamente nos detalhes que transforma uma foto boa em uma foto inesquecível. Aquele momento em que passo horas em uma edição, ajustando cores e sombras até que a imagem transmita exatamente o sentimento que eu capturei? Isso é puro hiperfoco em ação.

A mente com TDAH não costuma seguir uma linha reta. Ela salta, faz conexões inesperadas e viaja por caminhos que outros nem consideram. No dia a dia, isso pode ser distração. Na fotografia, é a essência da composição criativa.

Enquanto muitos podem procurar o ângulo óbvio, minha mente já está explorando o contraponto, a composição através de um objeto, o reflexo em uma poça d’água. Esse pensamento divergente me liberta das regras tradicionais e me incentiva a experimentar. É o que me leva a deitar no chão para capturar a grandiosidade de uma cena ou a usar um objeto inusitado para criar um flare único na lente. A criatividade não mora no caminho mais percorrido, e o TDAH é meu mapa para todas as rotas alternativas.

A Empatia como Ferramenta Principal

A intensidade emocional é outra faceta da nossa neurodiversidade. Sentimos as coisas com mais força, tanto as alegrias quanto as frustrações. Essa sensibilidade aguçada é uma ferramenta poderosa na fotografia de retratos.

Ela me permite criar um espaço seguro onde as pessoas se sentem à vontade para serem elas mesmas. Eu consigo sentir a hesitação, a alegria contida, a força interior. Minha câmera se torna uma ponte, traduzindo essas emoções complexas em uma imagem estática que continua a contar uma história. Capturar a essência de alguém não é apenas técnico; é um ato de empatia profunda.

Abraçando o Caos Criativo

Claro, nem tudo são flores. A mesma mente que me dá ângulos geniais é a que me faz esquecer de responder e-mails importantes. A mesma energia que me move durante um ensaio de 12 horas é a que torna difícil organizar os milhares de arquivos depois.

Mas aprendi a criar sistemas que funcionam para mim e, acima de tudo, a ter autocompaixão. Aprendi que o TDAH não é uma falha a ser consertada, mas uma característica a ser compreendida e aproveitada.

Minha mensagem para outros criativos neurodiversos é esta: não lute contra a forma como seu cérebro funciona. Trabalhe com ela. Encontre as ferramentas e as estratégias que te apoiam e liberte o poder que já existe em você. O mundo não precisa de mais fotógrafos (ou artistas, ou escritores) que veem as coisas da mesma maneira. Ele precisa da sua visão. Da sua bagunça genial. Do seu foco intenso.

O TDAH não é meu obstáculo; é a minha assinatura artística.

Leonardo Santos


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